Ao despir a Páscoa de sua moldura puramente histórico-religiosa, revelamos seu núcleo arquetípico: um fenômeno da psique que rege os ciclos de transformação e fertilidade interior. Em diversas culturas, o equinócio de primavera sempre convocou ritos de morte e renascimento — dos Mistérios de Elêusis aos cultos de Átis, materializados nos símbolos do ovo e da lebre.
Sob a ótica junguiana, essa iconografia transcende o folclore; são projeções do próprio processo de individuação. Esses mitos nos recordam que, para a emergência do novo — seja um afeto, uma ideia ou um sentido vital —, é imperativo o sacrifício do antigo. Tal como Perséfone que descende ao Hades, a consciência deve mergulhar no inconsciente para, enfim, retornar fecundada pelas profundezas. A fertilidade, aqui, não é apenas biológica, mas a capacidade da psique de gestar uma nova versão de si mesma após o confronto com a própria escuridão.
Para Jung, esse ciclo exterior corresponde a um movimento interior: há um “inverno psíquico” — momentos de depressão, esvaziamento, retração — que antecede uma nova organização psíquica. Celebrar o renascimento na natureza é, psicologicamente, dar suporte simbólico à capacidade da psique de se regenerar.
Na base dos mitos de fertilidade está o arquétipo da hieros gamos (casamento sagrado) entre o masculino e o feminino, entre céu e terra. Jung via nessa união o princípio de toda criatividade psíquica.